Diário Oficial do Estado de São Paulo - SP tem a 1ª Casa de Passagem para dependentes químicos


 

Marcos de 48 anos, diz que, nos últimos dias, além de ganhar novos amigos, realizou o seu maior sonho: conseguiu reencontrar os familiares. “Eles vieram me visitar: filho, nora, pai, mãe e até a ex-esposa...”, conta, satisfeito, durante conversa na Casa de Passagem, sua moradia desde meados de março.

Integrante do Programa Recomeço, instituído em 2013 pelo Estado, unidade oferece acolhimento provisório para a reconquista da autonomia

Sobre a sua experiência no local, nova estrutura de acolhimento do Programa Recomeço – Uma Vida sem Drogas, ele comenta ser um grande incentivo para se manter firme na luta contra o alcoolismo. “Aqui encontrei pessoas que considero irmãos e estou seguindo perceber a grande diferença, para melhor, de estar sóbrio. Recebi muita ajuda, tanta que até encontraram minha família”, explica.

Inaugurada oficialmente no dia 23 de março em um sobrado no bairro de Santa Cecília, a Casa de Passagem é um abrigo para permanência provisória, de até 30 dias, dirigido ao atendimento de homens dependentes de drogas com mais de 18 anos. Recebe pessoas em situação de risco, de rua ou com vínculos familiares fragilizados que já estão em tratamento e em mudança de estágio no ciclo de assistência.

Ciclo completo de assistência

Iniciativa do Governo do Estado instituída em 2013 para garantir assistência a dependentes químicos e suas famílias, o Programa Recomeço é coordenado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, com a participação das secretarias de Saúde, da Justiça e da Defesa da Cidadania e do Emprego e Relações do Trabalho.

De acordo com a coordenadora Gleuda Apolinária, a ação foi estruturada em cinco eixos para garantir um ciclo completo de assistência: prevenção, tratamento, reinserção social, justiça e revitalização de territórios de consumo de drogas.

No total, dispõe de mais de 3.350 vagas distribuídas em todas as áreas e, de 2013 até ano passado, providenciou mais de 8,9 mil encaminhamentos para acolhimento voluntário em comunidades terapêuticas.

Autonomia – “Elas moram aqui enquanto aguardam avaliações diagnósticas e as providências necessárias para o encaminhamento de um serviço socioassistencial e de tratamento de saúde a outro, ou para o retorno à vida em sociedade”, informa a coordenadora do Programa Recomeço, Gleuda Apolinário. Segundo ela, trata-se de importe ponto da rede de assistência, pensado para que o paciente tenha oportunidade de readquirir sua autonomia com apoio psicossocial e abrigado em um ambiente residencial, distinto dos albergues e dos equipamentos de saúde.

A proposta foi idealizada em 2015 e desenvolvida inicialmente em um projeto piloto, para avaliação do modelo inédito no País. “Existem vários equipamentos de acolhimento, mas esse é o primeiro dirigido exclusivamente a dependentes químicos”, esclarece Gleuda. A coordenadora informa ainda que está prevista a criação de unidades em todas regiões do Estado, inclusive para a demanda feminina. “No mês que vem, abriremos a segunda em São José do Rio Preto, pois temos no programa o objetivo da assistência descentralizada”, avisa.

Residencial – Instalada numa casa reformada especialmente para o serviço, a Casa de Passagem comporta 24 acolhidas simultâneas e dispõe de salas de atendimento individual e de convivência, refeitório, lavanderia com máquinas de lavar-roupas, banheiros, quatro dormitórios, com seis camas em cada um, além do guarda-roupas.

A coordenação da unidade é realizada pela Organização Social de Saúde Casa de Isabel, entidade filantrópica habilitada em edital de chamamento público. De acordo com a responsável pela gestão, Maraíse Rosa de Oliveira, o custo mensal do serviço é de cerca de R$ 80 mil e inclui a aquisição de uma roupa básica, alimentação, transporte e as providências para conseguir documentos, quando necessários.

Durante os 30 dias no local, os moradores têm autonomia para sair sozinhos, frequentam o serviço de saúde no qual realizam tratamento e recebem orientações psicológicas e de assistentes sociais para a reorganização de suas rotinas, tirar documentos, requisição de benefícios, busca por colocação no mercado de trabalho, acesso à justiça e reaproximação com familiares.

“Nosso intuito é fortalecer a autonomia deles, para conseguirem resistir à tentação de voltar a usar a droga”, afirma o psicólogo Rodrigo Franco. Além do atendimento individual, é oferecida programação coletiva de oficinas internas e externas e de comparecimento a reuniões do grupo Narcóticos Anônimos (NA).

Segunda vida – Marcos chegou à Casa de Passagem por encaminhamento de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), da prefeitura, e, quase de saída, afirma estar muito mais confiante na sua completa recuperação, que terá continuidade na Moradia Assistida, outra unidade do programa. “Depois de ter realizado o sonho de reencontrar minha família, espero voltar a ter uma vida como a que eu tinha antes de começar a beber, há 20 anos. Estou muito mais seguro”, declara.

Outro morador, Jefferson, carioca de 34 anos, também está confiante. Há cinco anos veio para São Paulo pensando em se recuperar da dependência química, por considerar que a cidade oferece mais assistência, mas se desviou desse objetivo. “Comecei a trabalhar como eletricista, juntei dinheiro, comprei uma casa, mas não consegui parar com as drogas e perdi tudo. Estava muito mal quando decidi procurar ajuda no Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas, do governo estadual) ”, conta ele. Depois da internação de seis meses para desintoxicação, a experiência da autonomia na casa lhe trouxe segurança. “Tenho recebido muita orientação pessoal e de trabalho. Essa casa é uma ilha no meio da tempestade que é São Paulo”, avalia ele, que pretende ir para uma moradia assistida. “Esse auxílio vai me trazer uma segunda vida”, conclui.

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